Entrevista com Joca Torres da ContaAzul

Entrevista com Joca Torres da ContaAzul, alguém que você deveria conhecer

O Joaquim Torres, ou Joca Torres, é tudo menos comum. Engenheiro pelo ITA, autor de dois livros, evangelizador da gestão de produtos de software, competidor de provas de natação no mar, inclusive com medalhas, e talvez o inventor do dia com mais de 24 horas (mas, isso ele não contou, é só um achismo meu). Fora isso, o cara ainda é gente boa, o que já seria pedir demais!

Boa leitura e bom aprendizado!

Você é um engenheiro formado pelo ITA, a escola mais sinistra do Brasil, na minha opinião. :-) O que você levou dessa experiência?

Escola sinistra?!?!? (-:

Acredito que o mais marcante foram as amizades. Apesar de não os ver com a frequência que gostaria, todos os reencontros com meus amigos do ITA são muito ricos, com conversas instigantes sobre os mais variados temas, como se tivéssemos nos visto há poucos dias atrás.

Quem entra no ITA encontra várias pessoas com muitas afinidades, pessoas que gostam de estudar e que gostam de física e de matemática. Esse interesse comum cria uma conexão inicial muito bacana entre os alunos. A partir daí, são 5 anos não só estudando junto, mas vivendo junto no alojamento oferecido pela escola. É bastante tempo de convivência para fortalecer ainda mais os vínculos de amizade.

Outra coisa que descobri com os anos, é quem faz ITA gosta mesmo é de estudar. Eu gosto muito de ler, de aprender, de escrever sobre assuntos que aprendi, o que não deixa de ser mais uma forma de aprender. Tenho um amigo meu do ITA que com 45 anos, após uma carreira de sucesso como empreendedor, resolveu sair do dia a dia da empresa que havia criado para fazer mestrado e doutorado em física quântica.

Outro amigo meu fez PhD em modelos analíticos no Japão na década de 1990, assim que se formou. Depois teve uma carreira de sucesso como executivo de empresas de telecom. Recentemente decidiu sair da vida executiva e está dando aulas e consultoria sobre data science.

Tenho ainda um outro amigo que trabalha até hoje no desenvolvimento de negócios em empresas de equipamentos eletrônicos. Trabalhando para uma dessas empresas, ele teve que se mudar para a França. Aproveitou a oportunidade para estudar filosofia na Sorbonne.

Isso sem falar nos vários amigos que nunca abandonaram a vida acadêmica. Depois que se formaram fizeram mestrado doutorado e hoje são pesquisadores e professores de destaque em renomadas escolas de todo o mundo.

Outra coisa que impressiona no seu currículo foi ter criado a Dialdata, o BBS que virou um dos primeiros provedores de acesso à Internet do país. Como era trabalhar com tecnologia da informação nessa época?

Era bem divertido! Em 1993, eu morava numa casa em SP e um dos quartos era o BBS. No começo tínhamos umas 5 linhas de telefone para acesso, lembrando que linha de telefone naquela época era um patrimônio, cada uma custando milhares de reais.

O servidor principal tinha um disco rígido enorme para a época, de 1,7GB, e tinha uns 10 cm de altura! E os modens de 14,4 Kbps, que eram os mais rápidos da época! Nos computadores que recebiam as ligações via modem, a gente usava DOS mais um sistema multitarefa chamado DESQView para conseguir, com o mesmo computador, receber mais de uma conexão ao mesmo tempo.

Eu programava bastante nessa época. Todo o sistema de billing de clientes foi feito por mim em Turbo Pascal! :-P

A Dialdata foi vendida para a VIA NET.WORKS e após isso você foi trabalhar com os americanos, lidando com produtos globais. Como era fazer a gestão de produtos para várias culturas?

Foi uma experiência que me ensinou muito sobre respeito às diferenças e sobre empatia. Pessoas pertencentes a um determinado grupo (empresa, cidade, país, religião, associação, escola, etc.) têm uma cultura e um conjunto de valores único. Isso fica muito explícito quando você precisa fazer o seu trabalho em diferentes países.

A VIA NET.WORKS era uma empresa americana que comprova provedores de serviços de internet para pequenas empresas em vários países do mundo para criar um grande provedor global. A tagline era “Global Reach, Local Touch”.

Meu objetivo na gestão de produtos era criar um portfólio global de serviços de internet para que uma empresa multinacional pudesse comprar o mesmo serviço no Brasil, na Argentina, no México, na Holanda, na Inglaterra, na França, na Espanha, em Portugal e nos Estados Unidos.

Para conseguir atingir meus objetivos, tive que aprender o modo de trabalho de cada empresa local. Sua cultura e seus valores. Os anseios, as preocupações e as motivações das empresas de cada país eram diferentes. Só seria possível ter um portfólio global de produtos respeitando as idiossincrasias de cada equipe local.

Isso me deu a base do conceito de empatia, uma das principais características de uma boa gestão de produtos.

Falando em gestão de produtos, o que você acha que as pessoas mais erram nela? Não pode falar que é não ler o seu livro! :-)

Acho que até não é “não ler o meu livro” porque o livro está desatualizado. Tenho aprendido bastante desde que publiquei o livro, o que está me motivando a lançar sua segunda edição. Foi você quem falou no meu livro. Só aproveitei para fazer um pouco de jabá… :-P

Indo direto ao ponto, tem quatro pontos que dificultam muita a gestão de produtos:

  • Conhecer seu cliente: acho que esse é o mais importante. Todo gestor de produto acaba tendo sua agenda tomada por reuniões e cerimônias com pessoas de todos os times da empresa. Com isso, não sobra tempo para fazer o mais importante, conhecer bem o cliente, seus problemas e necessidades e suas motivações para ter esse problema resolvido ou essa necessidade atendida.

  • Definição clara de papéis e responsabilidades: o gestor de produtos faz interface com toda a empresa. Com algumas áreas é bem fácil ver os limites, mas com outras esse limite é bastante difuso. Por exemplo, entre o gestor de produtos e o líder do time de tecnologia, quem é responsável por conduzir as reuniões de planejamento, as dailies, o dia a dia do projeto? Entre o gestor de produtos e o gestor de marketing de produtos, quem é responsável pelas definições de produto, de preço, de análise de concorrência, de mensagem da comunicação? É muito importante ter esses papéis e responsabilidades claramente definidos para não impactar nos resultados do time e da empresa.

  • Oportunidades vs dores dos clientes atuais. Essa é uma dúvida bastante frequente. Devo perseguir novas oportunidades? E o que faço com as dores dos clientes atuais? Devo desenvolver um novo produto ou uma nova funcionalidade? Ou devo resolver dores dos clientes atuais? Aqui a solução é simples, pelo menos em teoria. Produto atual é produto atual, novas oportunidades são novas oportunidades. Cada um tem que ser tratada de um jeito. O ideal é que sejam tratadas até mesmo por times diferentes. Quando isso não é possível e tivermos um único time, esse time tem que saber separar claramente o trabalho no produto existente vs o trabalho em novas oportunidades. Por exemplo, 2 semanas para o produto existente, uma para a nova oportunidade, até que se justifique a criação de um novo time para a nova oportunidade.

  • Curto vs médio vs longo prazo: tenho encontrado muitos gestores de produto que têm claramente definido o longo prazo (visão 2020, onde queremos estar em 2023, e assim por diante) e operam o curto prazo com maestria (dailies, planning, refinement, planejamento trimestral). Contudo, devido às urgências do dia a dia, o gestor de produto acaba deixando a cola entre o curto e o longo prazo de lado. Qual é a visão de médio prazo. Onde preciso chegar daqui a 12 ou 18 meses (visão)? Para chegar nesse lugar, o que devo fazer (estratégia)?

Você liderou o time de produto da Locaweb por mais de 10 anos. Quais foram os principais desafios que você enfrentou para desenvolver um time com mais de 100 pessoas e dezenas de produtos?

Acho que o principal desafio foi criar e manter uma cultura de constante aprendizado e melhoria. As urgências do dia a dia podem divergir esse foco, fazendo as pessoas pensarem mais nas pequenas entregas diárias e deixarem de lado todos os aprendizado que vêm com os erros e acertos. Por isso sempre procurei instigar a reflexão sobre o que fazíamos e como fazíamos, pensando constantemente em formas de fazer melhor.

Outro desafio foi como organizar os times para encarar as diferentes fases e necessidades de que cada produto. Aqui a auto-organização foi chave para ajudar criar uma organização dos times que pudesse dar conta das demandas de cada produto e sistema.

Agora você está na ContaAzul, como tem sido essa experiência? O que tem achado da chuva de Joinville? haha

Sabe que eu tenho dado sorte? Tenho pego pouca chuva. Outra coisa que acho interessante do clima de Joinville é que apesar de alguns dias serem muito quentes, a umidade ameniza esse calor. Em São Paulo, por ser mais seco, tenho a impressão que os dias mais quentes são mais sofridos.

Minha experiência na ContaAzul tem sido incrível. O time é muito bom e tem muita vontade de aprender e de fazer melhor. Eu havia esquecido como era estar em uma empresa pequena, se bem que 200 funcionários já não é mais tão pequena assim. É um ritmo bem acelerado.

Nas primeiras semanas eu saia exausto com tanta informação nova e tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Mas, mesmo terminando as semanas exausto, eu me senti e sinto muito energizado, muito animado com tudo o que temos para fazer.

Nesse primeiros meses tenho tentado ajudar o time a se organizar melhor. A entender que existe o trabalho do dia a dia, o trabalho de sustentação da empresa e o trabalho em novas oportunidades e que esses trabalhos diferentes devem ser feitos de forma diferente, com ritmos diferentes. Caso contrário, um pode atrapalhar bastante o outro e os resultados podem sofrer com isso.

Falamos bastante do seu lado profissional, mas quem é o Joaquim Torres quando não está trabalhando?

Gosto muito de estar com minha família (minha esposa, minha filha e nossa cachorrinha). Senti bastante a falta delas nesse segundo semestre de 2016, quando vim para Joinville e elas ficaram em São Paulo para terminar o ano letivo da minha filha. Agora estamos todos em Joinville e isso me deixa bem feliz.

Gosto muito de música, de ouvir e de tocar. Nos últimos 3 anos descobri um instrumento muito bacana chamado ukulele, um violão pequeno usado bastante no Hawaii. Tem um som muito gostoso que me lembra praia.

E por falar em praia, algo que gosto muito é de nadar no mar. Sempre que posso vou fazer alguma prova de natação no mar. Tenho conseguido manter uma média de uma a duas provas por mês. Gosto de nadar distâncias médias (1 a 5K) a longas (10K ou mais). Aqui em Santa Catarina é fantástico, tem prova quase todo final de semana.

Por fim, gosto muito de ler, de estudar e de aprender. É incrível como sempre há coisas novas para se aprender e isso é muito empolgante!

Para fechar, as minhas duas perguntas clássicas:

Você tem alguns livros para indicar para os leitores?

Você não avisou que aqui eu não podia falar dos meus livros, né? Então aqui vai:

  • Guia da Startup: nesse livro falo sobre algumas técnicas para se criar uma startup do zero usando como base minha experiência em criar o ContaCal, um app contador de calorias.

  • Gestão de Produtos: nesse livro falo sobre a importância da função de gestão de produtos para o sucesso de uma empresa que tem um software, quer seja esse software o core dessa empresa, ou apenas um sistema auxiliar ao propósito dessa empresa.

Bom, chega de jabá! (-:

Alguns livros que me ajudaram a mudar a forma como trabalho e vejo as coisas:

  • Direto ao Ponto: Criando produtos de forma enxuta, do Paulo Caroli onde ele compartilha uma sequência de atividades rápidas e efetivas para entender e planejar a criação de produtos enxutos, baseadas no conceito de produto mínimo viável.

  • Inspired – How To Create Products Customers Love: do Marty Cagan, ex-VP de gestão de produtos no eBay. É o manual de gestão de produtos de tecnologia. Explica todos os principais conceitos relacionados à gestão de produtos. Para as pessoas que vem trabalhar comigo no meu time de coordenação de produtos da Locaweb, esse livro é leitura obrigatória.

  • Sense of Urgency: esse foi o último livro que li. Fala da importância de se manter o senso de urgência nas organizações em função das constantes mudanças de nosso mundo. O primeiro conselho que o livro dá para criar senso de urgência é falar com seu cliente! Exatamente a primeira coisa com a qual todo gerente de produto deve se preocupar.

  • Smarter, Faster, Better: algumas dicas sobre como aumentar a produtividade no seu dia a dia, com aprendizados baseados em fatos e comprovações científicas.

  • The 4 Disciplines of Execution: ensina alguns conceitos importantes para melhorar a qualidade de execução de sua iniciativas.

  • Exponential Organizations: que conceitos estão por trás do crescimento exponencial de algumas empresas? É o tema desse livro, escrito pelo pessoal que criou a Singularity University.

Se você pudesse viajar no tempo, qual ou quais dicas daria para você mesmo no início de carreira?

Essa é uma ótima pergunta. Acho que o conselho seria “foque no aprendizado”. Procure aprender com toda situação que você viver, seja ela boa ou ruim. Se foi boa, o que faz dela uma boa situação? O que fez você chegar nessa situação? O que você deve continuar fazendo para chegar a outras situações similarmente boas? Se foi ruim, por que ela foi ruim? Como você chegou nesse resultado ruim? O que evitar para não incorrer nesse resultado novamente no futuro?

Outro conselho é “para intensificar o aprendizado, compartilhe-o”. Fale sobre o que aprendeu com outras pessoas. Troque experiências. Contar para os outros sobre seus aprendizados tem dois benefícios. O primeiro é te forçar a estruturar seu aprendizado de forma que ele possa ser transmitido para outra pessoa.

Isso parece algo simples, mas não é. Você precisa colocar energia para explicar para alguém algo que você viveu e aprendeu e que a outra pessoa não viveu. O segundo benefício é que ao compartilhar seus aprendizados você abre uma oportunidade para a outras pessoas também compartilharem com você seus aprendizados.


Eu já imaginava que a entrevista seria muito legal, mas acabou superando as minhas expectativas! O Joca é uma baita fonte de conhecimento e sabedoria. Aprendi muito com ele!

E aí, o que você achou dessa entrevista? Deixe um comentário! :)

Robson Cristian

O cara que criou esse blog! :)

4 Comments

  1. Excelente entrevista! O Joca sabe das coisas e sente prazer em compartilhar o seu aprendizado.

    Já visitei o site de sua empresa e, com este currículo todo, sinto-me inclinado a comprar seus serviços…

    1. Obrigado, Abel! O Joca é fora de série mesmo!

  2. Gostei muito. Ao ler a experiência profissional e demais atividades, pensei que você estava falando de mais de uma pessoa. Concordo 100% com a invenção do dia de mais de 24 horas.

    1. Sim, ele fez tanta coisa que parece que tem uns 200 anos! haha

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